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28 de setembro de 2023

Transtornos de ansiedade são sexta maior causa de perda de saúde no mundo

Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC) está incluído nessa categoria e afeta cerca de quatro milhões de pessoas no Brasil

Os transtornos de ansiedade foram classificados, pela Organização Mundial da Saúde (OMS), como a sexta maior causa de perda de saúde não-fatal em todo o mundo. O órgão estima que quase um bilhão de pessoas convive com algum transtorno mental.

Uma das doenças mais comuns que está incluída nessa categoria é o Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), que, segundo a OMS, afeta cerca de 2% da população mundial. No Brasil, em torno de quatro milhões de pessoas são afetadas por esse tipo de transtorno de ansiedade.

O TOC é caracterizado pela presença de pensamentos, impulsos ou imagens recorrentes e persistentes. Essas obsessões dão origem a compulsões, que são comportamentos adotados para diminuir a angústia e a ansiedade sentidas.

“Por ser intrusiva e indesejada, na maioria das vezes, a obsessão gera uma ansiedade ou angústia. A partir disso, a pessoa adota um comportamento para buscar um alívio, que é imediato, mas não é duradouro. Isso cria o ciclo do TOC, reforçado todas as vezes por essa associação. Se uma pessoa bate na madeira duas vezes, por exemplo, para evitar que algo catastrófico aconteça e nada acontece de fato, isso contribui para que o ciclo se repita”, explica a psicóloga Juliana dos Santos Carvalho.

A profissional afirma que nem sempre uma pessoa tem clareza sobre as obsessões que caracterizam o transtorno. “Há pessoas com TOC que possuem clareza de que nada de ruim vai acontecer verdadeiramente. Outras, sabem que é pouco provável e algumas não conseguem identificar que essa é uma obsessão, um pensamento que não é real”, destaca.

Há, ainda, quem associe o TOC às manias, mas a psicóloga garante que são questões diferentes. “Um dos prejuízos que a pessoa com transtorno obsessivo compulsivo experimenta é o fato de que essas compulsões e obsessões são incapacitantes. Para se ter uma ideia, um dos critérios para diagnosticar o TOC é a pessoa perder mais de uma hora por dia com esses comportamentos. Já com as manias, você consegue viver normalmente e fazer outras coisas”, diz Juliana.

Sintomas e tratamento

Os sintomas do TOC não são os mesmos para todos, mas a psicóloga aponta os prejuízos causados à vida como os principais indicativos para a busca por diagnóstico e tratamento. “As compulsões, os rituais, podem causar prejuízos que nós chamamos de clinicamente relevantes para a qualidade de vida de uma pessoa. Se alguém não tem a dimensão de que aquilo está afetando, quem está ao redor pode perceber”.

Juliana usa o exemplo do TOC de limpeza, considerado um dos mais comuns. Alguém que sofre com esse transtorno pode chegar atrasado em todos os compromissos, não sair de casa ou, até mesmo, não conseguir receber visitas.

Ainda de acordo com a profissional, o TOC não tem cura e, diferente de outros transtornos mentais, não há remissão total dos sintomas. O tratamento é focado em reduzir os impactos das obsessões para que o paciente tenha mais qualidade de vida.

“O que nós temos de melhor evidência para o tratamento do TOC são as terapias comportamentais, que ajudam a entender o transtorno e lidar melhor com os sintomas. Outra técnica é a exposição com prevenção de respostas, que leva o indivíduo a enfrentar as dificuldades dele em um ambiente seguro”, detalha.

Medicamentos, geralmente antidepressivos, são associados à terapia para que o transtorno deixe de causar prejuízos significativos à vida do paciente.

Como diferenciar o TOC de um tique?

“Eu sou capaz de lembrar com precisão o dia em que a minha vida mudou. Foi como virar uma chave. No dia anterior ao evento que desencadeou o início da progressão do meu TOC, eu era um garoto sem TOC e, depois do fatídico episódio, tudo mudou”.

Esse é o relato que abre um dos capítulos do livro “É tique ou TOC?”, escrito pelo doutor em biomedicina, perito em toxicologia e professor universitário Éric Barioni, que foi diagnosticado com transtorno obsessivo compulsivo aos 24 anos.

A brincadeira no título da publicação faz alusão a uma confusão comum de ser feita. “Nem todo indivíduo que tem TOC, tem tique. As pessoas podem confundir muito. O tique é um transtorno de neurodesenvolvimento e se caracteriza por ser mais involuntário do que o TOC”, esclarece a psicóloga.

Episódios traumáticos na infância, como abusos sexuais e um problema de saúde da mãe, explicam a origem do TOC de Barioni, que passou a ter pensamentos intrusivos ligados à morte, doença e sexo. A partir dessas obsessões, vieram as compulsões, entre elas, auto agressões físicas e repetições de movimentos que traziam o alívio descrito pela psicóloga.

Nem sempre o TOC pode ser associado a um trauma, conforme explica Juliana. “As causas para o transtorno podem ser ambientais, relacionadas ao contexto em que a pessoa vive, como é o caso das agressões e dos eventos traumáticos. Mas, também pode haver fatores genéticos e questões ligadas à gestação que podem aumentar os riscos à doença”, pontua a profissional.

A busca pelo diagnóstico e tratamento do TOC ajudaram o professor universitário a lidar com o transtorno e o fizeram compartilhar a experiência com o transtorno no livro. “Ainda tenho TOC, mas, hoje, tenho mais clareza para tratar desse assunto. Sou muito seguro sobre os meus conhecimentos da doença e consegui com que ela se moldasse, para que não fosse tão aparente como na época da adolescência”, finaliza Barioni.

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