O que a saída do elefante Sandro do Zoológico de Sorocaba nos ensinou

Depois de mais de 40 anos no Zoológico de Sorocaba, o elefante Sandro foi para um santuário no Mato Grosso. Eu estive lá, vi de perto e explico por que "sempre foi assim" não é argumento quando o assunto é bem-estar animal.
Foto: Santuário de Elefantes Brasil
Quem cresceu em Sorocaba quase com certeza tem uma foto ao lado do recinto do elefante. O Sandro fez parte da infância de muita gente: a excursão da escola, o passeio de domingo, a primeira vez que uma criança viu um animal daquele tamanho de perto. Por isso a saída dele mexeu tanto com a cidade. E mexeu comigo também.
Em 16 de setembro de 2026, o Sandro deixou o Parque Zoológico Municipal Quinzinho de Barros rumo ao Santuário de Elefantes Brasil, em Chapada dos Guimarães (MT). Foram pouco mais de 1.600 quilômetros de estrada e cerca de dois dias e meio de viagem. Ele entrou sozinho na caixa de transporte, depois de dias de preparação da equipe.
Escolhi abrir esta coluna com ele porque a história do Sandro resume uma coisa que eu repito há mais de 20 anos de causa animal: não é porque sempre existiu desse jeito que está certo.
Quem é o Sandro
Antes de chegar a Sorocaba, o Sandro foi animal de circo. Está no zoológico desde 1982, ou seja, mais de 40 anos da vida dele foram vividos no mesmo recinto. Desde 2020, quando morreu a companheira dele, a elefanta Haisa, ele vivia sozinho.
E é preciso dizer com todas as letras: o Sandro não era maltratado aqui. Ele sempre foi muito bem cuidado pela equipe do zoológico, com alimentação adequada e acompanhamento técnico. A questão nunca foi o carinho de quem cuida. A questão é o que um elefante precisa para viver bem. É um animal que anda quilômetros por dia, vive em grupo e cria laços longos. Um elefante idoso, sozinho, num espaço limitado, está muito longe disso.
O que eu vi no Santuário de Elefantes Brasil
Em 2025, com o processo judicial em andamento, procurei o prefeito e propus que a decisão fosse tomada a partir de uma avaliação técnica do que era melhor para o Sandro, independente dos movimentos "Fica Sandro" e "Sandro no santuário". A equipe técnica do zoológico foi conhecer o santuário, e eu fui junto, representando a Comissão de Bem-Estar e Proteção Animal da Câmara.
Ver imagem é uma coisa. Estar lá é outra. A estrutura que o santuário tem para cuidar de elefantes é infinitamente maior e melhor do que a que a gente consegue oferecer num zoológico urbano. Lá o Sandro teria espaço, terra e a companhia de outros elefantes, coisa que aqui ele não tinha mais. As dúvidas sobre o transporte e a adaptação, que eram as minhas também, foram esclarecidas em reuniões com os técnicos.
Voltei de lá com uma certeza, que disse publicamente na época: o tempo que a Prefeitura ganhasse com o Sandro aqui seria o tempo que o Sandro perderia estando aqui.
E sempre fiz uma cobrança: se a ideia era manter o Sandro em Sorocaba, então que ele tivesse a melhor estrutura possível. A reforma do recinto foi prometida anos atrás e não saiu do papel.
O que decidiu o caso
Não fui eu quem decidiu, nem a população. Quem decidiu foi a Justiça. Em junho de 2026, o Tribunal de Justiça de São Paulo acolheu, por unanimidade, o pedido do Ministério Público e determinou a ida do Sandro para o santuário. O laudo pericial apontou que o zoológico não tinha a infraestrutura mínima de mobilidade e conforto para um elefante idoso. A decisão também colocou a responsabilidade técnica e financeira da operação com o santuário.
A Prefeitura recorreu, argumentando que a viagem trazia risco para um animal daquela idade. É uma preocupação legítima e eu respeito. Mas a pergunta que importava era outra: qual é o melhor lugar para o Sandro viver os anos que ainda tem?
"Sempre foi assim" não é argumento
Durante décadas, ver um elefante num zoológico urbano parecia natural. Ninguém perguntava se aquilo era bom para ele. Era só "o elefante do zoo".
A saída do Sandro fez muita gente perceber que as coisas não eram bem como contavam. E isso não vale só para elefantes:
- Cachorro preso na corrente o dia inteiro já foi visto como normal. Hoje a gente sabe que é sofrimento.
- Ninhada abandonada na rua já foi tratada como problema de quem achou. Hoje a gente sabe que castração é política pública.
- Animal de circo já foi diversão de família. Hoje é proibido em vários estados do país.
- Cavalo de carroça puxando peso no asfalto quente ainda é rotina em muitas cidades, e merece o mesmo olhar.
"Ah, mas politicamente não é bom mexer nisso." Pode até ser. Mas para o animal é bom, e é isso que precisa ser debatido. A causa animal avança justamente quando alguém para e pergunta: e se a gente estiver errado?
Todas as vidas importam
O lema do meu mandato é "Todas as vidas importam", e ele não é frase de efeito. Quando a gente fala em proteção animal, a primeira imagem é o cão e o gato, e eles são, sim, a maior parte do trabalho do dia a dia: castração, adoção, resgate, denúncia de maus-tratos. Mas a nossa defesa precisa sair da seara do cão e do gato. Ela envolve também os animais de porte grande, os silvestres que atravessam nossas estradas e os que vivem sob a guarda do próprio poder público, como era o caso do Sandro.
Uma cidade que cuida bem dos seus animais olha para todos eles, e não só para os que cabem no colo.
O que fica para Sorocaba
A história do Sandro deixa três lições práticas para a cidade:
- Bem-estar se mede pela necessidade do animal, e não pelo costume. O que a espécie precisa vem antes do que a gente se acostumou a ver.
- Informação muda opinião. Muita gente só entendeu a situação do Sandro quando soube que ele vivia sozinho havia anos. Trazer a verdade para as pessoas é parte da solução.
- Proteção animal é responsabilidade de todos. Do cidadão que denuncia, do protetor que resgata, do poder público que cria e cumpre política. Ninguém resolve sozinho.
Hoje o Sandro tem espaço para caminhar, terra para mexer e a chance de conviver com outros elefantes. Que a próxima geração de sorocabanos lembre dele não pela foto ao lado da grade, mas como o elefante que ensinou uma cidade a olhar para os animais de outro jeito.
Nesta coluna, vou falar todo mês sobre a causa animal em Sorocaba: o que avançou, o que ainda falta e como cada um pode ajudar. Tem uma história, uma denúncia ou uma dúvida sobre o tema? Me manda, ela pode virar o próximo texto.
O Sandro no santuário
Veja como está o Sandro hoje, no vídeo do Santuário de Elefantes Brasil:
Jussara Fernandes é vereadora em Sorocaba, protetora e ativista pelos direitos dos animais.
