Cotidiano

24 de fevereiro de 2023

Após morte do pai na guerra, refugiada que vive no Brasil vende quadros para comprar passagem de volta à Ucrânia

A guerra entre Rússia e Ucrânia, que completa um ano nesta sexta-feira (24), já deixou mais de 300 mil soldados e civis mortos nos dois países. Uma das vítimas do confronto foi o pai da artista e restauradora ucraniana Valéria Okorokova, de 21 anos, que vive como refugiada no Brasil desde maio do ano passado.

Logo no início do conflito, em 24 de fevereiro de 2022, Valéria foi forçada a deixar sua casa e, com ajuda de uma igreja, conseguiu se mudar para Sorocaba, no interior do estado de São Paulo, com a mãe e a irmã mais nova.

Agora, após receber a notícia da morte do pai, Okorokov Sergey Ivanovich, na região de Donetsk, na Ucrânia, a jovem decidiu vender os quadros que pintou para arrecadar dinheiro e conseguir retornar ao país de origem, onde pretende enterrá-lo dignamente e cuidar dos bens da família.

“A situação continua muito tensa lá na Ucrânia. Ainda tenho uma avó acamada em minha cidade natal, Dobropolye, uma tia de Mariupol e outra tia em Donetsk. A Igreja Família nos ajudou financeiramente e nos aceitou em Sorocaba como refugiados. Não conseguiríamos ter vindo sozinhas, pois seria difícil atravessar o oceano sem apoio”, relata.

Fora do mercado de trabalho

Embora estejam no Brasil há quase um ano, Valéria e a mãe não conseguiram arranjar emprego para se manter no país, nem para arcar com os custos da viagem de volta à Ucrânia.

Com dez anos de experiência em pintura por encomenda, a jovem tentou se virar em Sorocaba pintando retratos. Comprou o material necessário e fez cartões de visita, mas, como ainda não conseguiu aprender a se comunicar em português, seus serviços não foram procurados.

Já a mãe de Valéria, que trabalhou durante 15 anos como manicure, chegou a abrir um salão de beleza na cidade do interior de São Paulo. Ela alugou um quarto e comprou os equipamentos, mas também não teve demanda e precisou fechar o negócio por conta da crise financeira que se instaurou no país no ano passado.

“Meu pai morreu como um herói, defendendo meu país, no mês de outubro do ano passado. Ainda é muito difícil para mim falar sobre isso, pois perder um ente querido é uma dor insuportável, por isso preciso de ajuda para voltar à minha terra natal”, explica.

Diante dessa situação, ela resolveu usar seu talento para levar todos de volta ao país de origem. Os quadros custam cerca de R$ 250 cada, e quem se interessar pela história da jovem pode comprá-los na papelaria e livraria Pedagógica, que fica na Rua Padre Luiz, 235, no centro de Sorocaba. As primeiras pinturas de Valéria, “O Leão da Tribo de Judá” e “O Cordeiro para a Matança”, baseadas no cristianismo, já foram vendidas na igreja.

Vida ligada à arte

Além da pintura, Valéria aprendeu a tocar violino e piano em uma escola de música por quatro anos, mas uma lesão na infância a impediu de seguir carreira na área. Foi então que ela passou a frequentar aulas em um estúdio de arte, aos 12 anos, sob a orientação de Alla Kimerina. Em 2019, após se formar, Valéria ingressou na Universidade Nacional Oles Honchar Dnipro, mas não a concluiu por motivos de saúde.

Durante o período em que viveu em Sorocaba, a ucraniana decidiu aprimorar sua técnica com ajuda da professora e artista plástica Cecilia Rodriguez.

“Faço desenhos e retratos há bastante tempo, desde 2011, mas foi só no Brasil que pude me abrir como pessoa e fazer minha exposição. Estudei com a Cecilia por cerca de dois a três meses, e sou muito grata a ela por ter me dado uma experiência inestimável em arte e pintura. Ela é uma pessoa maravilhosa, com um grande coração. É mais que uma artista para mim, é uma pessoa com letra maiúscula”, comenta.

Pintura com sentimentos

A princípio, a jovem dava preferência a retratos realistas, mas, aos poucos, começou a se envolver também com pintura de paisagens impressionistas, estilo através do qual consegue transmitir emoções e sentimentos, sob o pseudônimo Afelion, retirado da imagem de Ofélia da tragédia “Hamlet”, de William Shakespeare.

“Às vezes pinto obras surreais voltadas para sentimentos íntimos. Mas, nesta fase da minha vida, comecei a me desenvolver espiritualmente e a fazer pinturas religiosas, que personificam meu amor a Deus e minha fé. Em geral, através da arte, eu conheço o mundo e o conduzo. Posso criar algo novo eu mesma”, continua.

Array