Elos, Fatos & Afagos

22 de agosto de 2023

Mulher: gozar é um ato político.

Eu gozo, tu gozas, elAs gozam

Outro dia, voltando de um encontro com amigas e dirigindo, momento típico e clichê de todos os meus questionamentos aleatórios, eu “lancei”: qual foi a primeira orientação sexual que vocês tiveram?

Respostas variadas, mas nenhuma gostosa o bastante para os meus ouvidos.

Pílula. Pílula. Pílula. Eco de um machismo estrutural que, infelizmente, começa na boca materna.

Ninguém nos diz primeiro para nos tocar. Ninguém menciona que o clitóris fica logo ali, que nosso caminho para o gozo é extenso e que conhecer o próprio manual do prazer é necessário. Ninguém ensina que o anticoncepcional é um exterminador de libido. Ninguém se importa, contanto que você obedeça aos protocolos estruturais e, minha menina: “não engravide”.

Longe de condenar a orientação materna acerca da responsabilidade de colocar um filho no mundo precocemente, mas mãezinha, gozar é preciso.

Eu acho que o gozo é subestimado. No caso da mulher, posso dar um plus e dizer que ele é descartado. Poucas mulheres gozam, poucas mulheres se permitem gozar.

A mulher que conhece seu próprio corpo é uma mulher com o controle remoto e acho que a sociedade gosta mais da gente como telespectadora do prazer masculino. Não é interessante que a gente comande a cena. É mais socialmente aceito que a gente seja a caça.

E quando falo de gozo, não falo só do sexo. Falo do gozo como um prazer de muitas facetas.

Se pode gozar por muitos lados. Se pode gozar fazendo uma viagem com as suas amigas. Se pode gozar ao se permitir largar uma casa “com uma louça caótica” e ir para um boteco beber uma cerveja. Se pode gozar, deixando, por algumas horinhas, seu papel materno para correr com um fone de ouvido tremendo ao som de um pancadão.

Se pode gozar, embora com dificuldade no percurso, se despindo da culpa “de estar gozando”.

Sabe, forço muito a barra comigo mesma. Toda vez que me questiono, se eu deveria “fazer o papel assim ou assado”, penso na minha filha.

Eu não quero que ela tenha as minhas algemas. Não quero que a culpa faça companhia com ela em uma mesa de boteco. Não quero que ela se crucifique as vezes que olhar para seu lindo umbigo.

Eu a quero com controle remoto. Vou falar para ela se entregar a máquina do seu próprio corpo. Vou dizer que libido é pulso de vida. Que sexo a gente faz primeiro sozinha e depois com o outro. Que “devo” se utilizar menos do que “quero”. Que o homem se sentir acuado com as suas asas não merece seu corpo, muito menos os seus voos.

Afinal, acabou o tempo de presa indefesa,

somos a caça e a caçadora.

Quem comanda o controle e a cena.

E, mulher, como reparação histórica e política: 

-goze

Fernanda Padilha

Advogada, professora, especialista em Direito de Família e Sucessões e Doutoranda em Direito Civil pela Universidade de Buenos Aires, Argentina.

Escritora do Projeto Cultural Útero (Projeto aprovado pela Administração Pública Municipal e que tem como objetivo abordar pautas feministas de forma artística).

Amante da arte e defensora dos emocionados. Acredita no poder desmistificador das palavras e na força revolucionária do afeto.

  fernanda.padilha.ppndadvogados@gmail.com